
Quando eu era adolescente, eu realmente gostava de andar como boa parte de quem é do Centro-Oeste anda e porra..era uma puta discriminação q sofríamos, hoje a coisa se banalizou e os tempos estão menos árduos, mas fico pensando pq uma boa parcela de pessoas q não convivem diariamente com a violência, decidiram seguir por esses caminhos de poserismo, uma das explicações mais sóbrias é de um antigo texto, q achei datilografado na net e decidi postar:
A atitude política que revela uma busca de "autenticidade" torna-se preocupante se gera identificação com a estética da criminalidade
Problemas com a escola eu tenho mil, mil fitas/é inacreditável, mas seu filho me imita./No meio de vocês ele é o mais esperto/ginga e fala gíria - gíria não, dialeto! (...) Esse não é mais seu, tomei, cê nem viu/entrei pelo seu rádio, fiuuu... subiu! No tom provocativo de sempre e com grande talento de poeta, Mano Brown lançou seu desafio àqueles que ele chama de 'senhores de engenho' no último CD dos Racionais, Vida Louca, de 2002: pelas ondas livres do rádio, o rapper negro da periferia 'rouba' a identidade do filho da burguesia branca. Alguma coisa mudou na atitude de Brown e seus manos depois de Sobrevivendo no Inferno, onde eles demarcavam o território do rap excluindo os 'filhinhos de papai' que se faziam passar por malandros escutando os Racionais MC's no rádio do carro. Em 2002, os músicos mais populares do hip-hop paulista entenderam que a potência de seu rithm and poetry ultrapassa barreira de classe e de raça. Ninguém consegue impedir que os jovens do Jardim América se identifiquem com o discurso produzido pelos moradores do Jardim Ângela.
Alguns pais se preocupam - não sei se deveriam. Cada vez mais os adolescentes adotam as roupas, a gíria ('gíria não, dialeto!'), a música, a estética da favela. Uma amiga me conta que os amigos do filho tomaram os personagens do filme Cidade de Deus como ídolos. O espantoso é que os garotos não têm idade para assistir ao filme; identificaram-se com a representação da representação: o carisma dos personagens é transmitido pelos clipes de divulgação na TV ou em conversas com amigos mais velhos. Outro conhecido, morador do Pacaembu, diz que o filho de 15 anos superou uma crise de insegurança e ansiedade quando começou a freqüentar o setor mais barra-pesada da quadra dos Gaviões da Fiel, tentando confundir-se com os torcedores da periferia. Um colega de minha filha fez amizade com os garotos da favela vizinha a sua casa e sai todas as noites para grafitar muros e fumar com eles.
Pode ser uma estratégia de proteção. Para um adolescente em idade de começar a sair sozinho pelas ruas - felizmente, nem todos se conformam com a vidinha claustrofóbica de shopping center, motorista e DVD -, é mais seguro ser confundido com um 'mano' do que com um playboy. Alguns fazem pose de bandido: 'É melhor ser amigo dos caras que passar pelo otário que eles vão assaltar'. Uma das polarizações que nossa sociedade violenta e competitiva criou não é entre ricos e pobres, brancos e negros: é entre espertos e otários. Claro que, para o garoto de classe média, posar de 'esperto' não garante muita coisa: os 'enquadres' da polícia podem oferecer tanto perigo quanto os eventuais encontros com um assaltante.
Mas não é só de proteção que se trata. Os adolescentes não estão tentando enganar os bandidos: estão se identificando, de fato, não necessariamente com os criminosos, mas com os marginalizados, os meninos e as meninas da periferia e das favelas. Identificam-se com a cultura hip-hop: rap, skate, grafite, 'bombeta e moletom'. Há um aspecto político nessa atitude, é claro. Crescem entre os adolescentes uma recusa dos padrões consumistas predominantes em sua classe social e uma busca de 'autenticidade', de valores que façam mais sentido no mundo injusto em que vivem. Verdade que é uma recusa ingênua, pois também passa pelo consumo: trata-se de comprar outras roupas, outros CDs, freqüentar outras casas noturnas. Mas, como toda estética comporta uma ética, a escolha do modelo da periferia faz alguma diferença. É como se só fosse possível encontrar alternativas para a falta de sentido da vida pautada pelo consumo identificando-se com aqueles que não têm recursos para consumir.
Vejo também um movimento de exogamia, de saída do círculo protegido da família para o vasto mundo - e o mundo fora da família, hoje, tem sido insistentemente apresentado à criança e ao jovem como o mundo do perigo. Só que não é possível viver indefinidamente protegido do mundo. Vamos a ele, então. Sejamos perigosos.
Nada disso é muito grave. É preferível, para a formação moral de um adolescente, que ele veja o mundo como uma selva a desbravar do que como uma vitrine de butique. O que é preocupante, a meu ver, não é a identificação dos meninos da elite com a estética dos excluídos, mas a identificação com a violência. O preocupante é quando a curiosidade e a ousadia em romper com o circuito estreito da vida burguesa desembocam na identificação com a estética da criminalidade. Que não é exatamente a linguagem dos criminosos - esta só conhecemos de fato quando estamos na posição de vítimas. O 'estilo' da vida bandida que os adolescentes tentam imitar é a linguagem elaborada e estetizada pelo cinema, pelo rap, pela televisão.
O fenômeno das identificações dos 'incluídos' com os marginais revela um efeito inesperado da nova onda de filmes que tentam dar visibilidade aos excluídos. São muitos. Evoco rapidamente: O Invasor, Uma Onda no Ar, Ônibus 174, Cidade de Deus, Carandiru e outros, só do ano passado para cá. É que vivemos em uma cultura em que o espetáculo dita as normas de cidadania, organiza as relações sociais, estabelece valores, formata as identificações. Os filmes que denunciam a miséria, a criminalidade, a violência policial são presas dessa contradição: ao tentar mostrar aquilo que a sociedade preferia ignorar, estão necessariamente espetacularizando o mal.
Será inevitável que todas as tentativas de denunciar a violência pela via do imaginário cinematográfico (ou televisivo) acabem produzindo a identificação do público com o próprio mal que se pretende contestar? Por que a realidade do crime, transformada em espetáculo, parece criar uma aura positiva em torno da imagem do criminoso? Qual será o carisma do personagem Zé Pequeno, traficante psicopata de Cidade de Deus, que faz com que um grupo de pré-adolescentes o eleja como símbolo da força, da ousadia e da radicalidade que eles desejam para si?
É verdade que a violência confere poder, ainda que ilegítimo, a quem faz uso dela. Impotentes diante do caos social, adolescentes flertam com a fantasia de se tornar tão violentos (ou poderosos) quanto os bandidos que os intimidam.
Por outro lado, há um efeito identificatório que é próprio da lógica do espetáculo. A espetacularização do crime, independentemente das intenções do autor ou do cineasta, faz do criminoso o símbolo da potência que a imagem lhe confere. Potência de visibilidade. Potência de ser.
É necessário construir uma nova ética da imagem para dar conta dessa contradição.
Trechos em destaque:
"Uma das polarizações que nossa sociedade violenta e competitiva criou é entre espertos e otários"
"Para um jovem em idade de sair sozinho pelas ruas é mais seguro ser confundido com um 'mano' que com um 'playboy' "
Texto de Maria Rita Kehl
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